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No espelho de aumento seus poros em cratera são a porcelana de sua obra. Artesã da pele. Escrava do pó compactuando com o lápis que grafita a profundidade do olhar de hoje. Olhar do olho que ela distorce e puxa e repuxa pra botar o grafite quase lá dentro. Arde, ela pisca, quase chora. Bota a máscara. De mentira. Depois é a sombra. Da mulher. Ela seduz o espelho com os longos cílios: ninguém é mais bela que você. Estala os lábios de gloss Natura Faces e sai.
Eu então fecho minha caixa de maquiagem e parto para o cabeleireiro.
O ovo lispectoriano me escolhe na minha geladeira. Me anuncia à mesa de mármore para que ela se torne plano inclinado. Me deixa ali por um tempo, funâmbula. Daí me quebra os olhos e os observa enquanto escorrem. Íris, pupila, gema, córnea, clara, globo... Minha casca esmigalhada para o lixo. Meu humor vítreo escorregado para dentro de não sei o que. Para dentro de um não sei quê, eu vou toda escorrida.
Então ele me bate, me chacoalha à ferro e à barulho, me trata de baralho, me mistura, me desmorfologiza. Sinto calor, suo, quero explodir, estou estufada, crescendo uma gravidez. Então vem a calma, volto para o mármore, sinto esfriar-me.
E aí sou bolo. De forma redonda. Sou bola achatada.
Sou roda. Cíclica e palatável. Sou infinita.
Eu não podia dormir. Era o medo da aranha peçonhenta, a viúva-negra. A bicha estava só à espreita. Assim que eu dormisse, ela começaria a mordaz escalada pela beirada do meu lençol e entraria por baixo dele. As oito pernas finas vagarosamente se embrenhariam na minha roupa de cama, na lentidão prazerosa da marcha até o clímax. Ela não teria pressa. Mas quando me encontrasse, à mercê do sono, enfiaria o veneno em mim e eu agonizaria até a morte. Eu não podia dormir. Fazia então um casulo com meu lençol, me certificando de que não tinha deixado nenhuma ponta dele para fora, em que a aranha pudesse subir. Ficava de bruços. Às vezes fechava os olhos, mas logo os abria de novo. Começava a ouvir um ranger de armários. Portas sem óleo que alguém esquecera abertas e que choravam conforme o vento batia. Mas não havia portas dessas em minha casa; eu mesma havia verificado durante o dia que nenhuma delas rangia, eram todas novas. E também não havia vento; as janelas estavam sempre todas fechadas. No entanto, toda noite, depois de me proteger da aranha, não conseguia me proteger dessas portas. Pensei muitas vezes em me levantar e ir à procura. Mas se eu me descobrisse, a aranha podia se esconder entre os panos enquanto eu não estivesse, para me matar quando eu me deitasse novamente. Além disso, essas portas chorosas podiam ser uma armadilha de maus espíritos, que sabem que esses barulhos, ao mesmo tempo em que assustam, atraem as crianças curiosas. Dessa forma, quando eu finalmente chegasse perto, eles me trancariam para nunca mais soltar. Não, eu havia de ficar na minha cama. Não podia dormir. Mas de repente não sinto mais meu casulo. O lençol não está mais apertado em volta do meu corpo. Não ouço mais o chiado das portas invisíveis. Ouço outra coisa. São louças batendo umas contra as outras. Passos. Saltos de sapatos. Aperto os olhos com toda a força, com medo de abri-los e ver a aranha andando pela minha barriga ou o espírito de uma mulher de salto alto batendo uma colher numa xícara. A porta do meu quarto se abre. Fico tensionada em cima da cama, não me mexo, meus olhos doem de tanto que aperto minhas pálpebras contra eles. Está na hora, querida, já é de manhã, hora de ir pra escola...
Como que é? Só o chão do box debaixo dela sabia. Os joelhos em pliê, os dedos passavam sabão entre as carnes finas. Como cega, a menina enxergava com a mão. Precipitou os quadris para frente, tentou abaixar o tronco, a cabeça pesa demais, quase caiu. Deixou a água tirar o sabão do resto do corpo, se embrulhou com a toalha e fechou-se no quarto. Pegou um espelho de mão, colocou-o entre as coxas. Um respiro sufocado num susto. Fechou os olhos.